parallax background

Católico e marxista. Isto é possível?

O simbolismo da liturgia
26 de fevereiro de 2019
A Adoração da Cruz
28 de fevereiro de 2019

O comunismo hoje muito apregoado, ou seja, o marxismo (doutrina de Karl Marx, 1818-1883), vem a ser o sistema que propugna tornar comuns, de maneira radical e mais ou menos violenta, não somente os fundos produtivos (o capital e as terras), mas também os bens produzidos; preconiza assim a abolição da propriedade particular e a rigorosa igualdade social entre os homens.

O marxismo econômico e sociológico se enquadra dentro de uma concepção geral da vida ou dentro de uma filosofia, da qual é inseparável. Esta filosofia, porém, é muitas vezes ignorada por aqueles a quem certos aspectos laterais do comunismo conseguem atrair. Percorramos, portanto, rapidamente os traços dessa ideologia.

Primeiramente, o marxismo professa o materialismo, e materialismo dialético; o que quer dizer: a única realidade existente é a matéria, e matéria posta em contínua evolução, devida ao choque de forças antagônicas. Em consequência, toda a história se tece de conflitos entre os elementos contrários da matéria. Tão longo processo, porém, tende ao equilíbrio e à harmonia finais. Vê-se desde já que o marxismo incute uma visão dinâmica (que os seus mentores chamam de «dialética»), em oposição a qualquer concepção estática (ou «metafísica», diriam os marxistas) do mundo.

A matéria é eterna; está em movimento desde todo o sempre, nem pode ser concebida sem movimento. Na ideologia marxista, portanto, não há necessidade de um Motor Imóvel, Causa última de todas as causas (segundo a filosofia de Aristóteles), nem de um Criador ou Deus. A fé em um Ser todo-poderoso proviria da incapacidade de explicar os fenômenos naturais ressentida pelo homem primitivo.

Aplicados mais pròximamente à sociologia, estes princípios significam que o gênero humano até a época contemporânea viveu em constante luta de classes; o capitalista é o explorador e opressor; o operário, o oprimido: “A história da humanidade registrada até hoje é história da luta de classes”, reza o manifesto de Karl Marx publicado em 1848. O fator que condiciona a luta e explica todas as atividades humanas, vem a ser a economia: “A economia e a produtividade da vida material condicionam os fenômenos sociais, políticos o espirituais da vida em geral. Não é a consciência do homem que determina o modo de ser da sociedade, mas, ao contrário, é a vida dos homens na sociedade que determina a consciência dos mesmos” (Marx. Zur Kritik der politischen Oekonomie, Vorrede 1859}.

Em outros termos: Direito, Filosofia, Moral, Arte, Religião são considerados «ideologias» ou «superestruturas» da produção material; a classe dominante na sociedade costuma impor «às demais as suas concepções filosóficas e religiosas. O feudalismo medieval e o capitalismo falavam de princípios éticos absolutos; o marxismo, ao contrário, nega a existência de normas morais imutáveis: «A nossa moral é, em tudo e por tudo, subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado» (Lênin, Obras, 3:> edição XXV. Moscou 1933, 391). A primeira lei da ética marxista é a luta pela instauração universal da ordem de coisas comunista: não há, pois, direitos absolutos, mas a força e a violência em vista do objetivo proposto vêm a ser os ditames supremos da vida social. As artes e as ciências no marxismo devem igualmente exprimir o pensamento da classe operária, isto é, hão de ser cultivadas em função do Partido Comunista; aliás, toda a cultura comunista vem a ser «cultura do Partido», portadora de caráter popular socialista, patriotismo soviético, otimismo, etc.

Proposto ao mundo nos séc. XIX e XX, o marxismo apregoa a revolução social, da qual devem resultar a total extinção de classes e até mesmo a supressão do Estado; é a propriedade particular que divide a sociedade em classes. Para conseguir a sua meta final, o marxismo visa, em primeiro lugar, instaurar a chamada «ditadura do proletariado». Mediante a abolição do Estado burguês, os trabalhadores oprimidos procurarão aniquilar os seus opressores atuais, sendo-lhes lícito, para isto, o recurso a qualquer meio coibitivo (em verdade, no Estado marxista, é um só homem, o ditador, quem aplica esses meios «em nome do proletariado» ou também contra o proletariado), Na fase definitiva do processo comunista, já não haverá autoridade de Estado, mas todos os homens, livres da escravidão capitalista e dos numerosos preconceitos que esta acarreta, viverão sem leis, movidos unicamente pelo entusiasmo do trabalho desinteressado, trabalho espontaneamente executado para o bem da coletividade; desaparecerão as injustiças e a miséria! — É, pois, uma verdadeira Redenção, é um autêntico messianismo encaminhado para um paraíso terrestre, que o marxismo propõe ao mundo.

Neste quadro é claro que nenhuma das tradicionais formas de religião tem cabimento : «O marxismo é um materialismo. Como tal, é inimigo implacável da religião.. Devemos combater a religião. Este é o abc de todo materialismo, por conseguinte também do marxismo» (Lênin. Obras XIV 70). «O Partido não pode ser neutro frente à religião. .. porque ele é favorável à ciência, ao passo que os preconceitos religiosos são contrários a esta» (Stalin. Obras X 132). Não é menos verdade, porém, que a ideologia marxista com a sua mística, ou seja, com a sua fé entusiástica na consecução da felicidade integral, se torna uma religião, exigindo para as instituições e os representantes do comunismo a adesão que sempre foi tributada a Deus. Já Dostoievsky (+1881) dizia muito bem, como que caracterizando antecipadamente os comunistas contemporâneos: “Os homens não se tornam ateus apenas, mas creem no ateísmo como em uma religião”. Tem-se observado repetidas vezes que o marxismo se apresenta como um catolicismo às avessas; muitos são os pontos de contato de ambos, trazendo apenas sinais inversos de valorização (positivo, negativo; à direita, à esquerda).

Qual o juízo a proferir sobre tais teorias?

Não se pode negar que a ideologia marxista encerra um núcleo de verdade: o mal-estar da sociedade provém não raro do predomínio injusto de uma classe sobre asoutras ou da defeituosa distribuição dos bens produtivos. Desta verificação, porém, não se segue que a solução consista em suprimir a propriedade privada e as classes sociais. Com efeito:

a) não se podem reduzir todos os problemas humanos à questão econômica, como se o homem por sua natureza fosse destinado a ser mero produtor e consumidor de bens materiais, ficando as suas demais aspirações dependentes da satisfação desta primeira. Haja vista a família: não são as necessidades econômicas que dão origem à família, mas, ao contrário, é a família que funda a economia (o termo grego oikonomia o diz muito bem: oikos, casa; nomiat dispensação, legislação). É o desejo de se perpetuar e de certo modo imortalizar que leva o homem a constituir um lar e a procurar consequentemente, mediante a sua indústria (caça, pesca, agricultura), os meios de subsistência para os seus familiares.

Também é vão dizer que a Filosofia, a Moral, a Religião são funções da produção material, embora possam sofrer a influência desta; existem, sem dúvida, verdades especulativas e normas éticas objetivas, imutáveis: que a soma dos ângulos de um triângulo seja igual a dois retos, é proposição que nenhum sistema econômico jamais poderá alterar. Em particular no tocante à religião, é absurdo apresentá-la como expressão do homem covarde ou atrasado: o testemunho dos povos, os documentos da civilização aí estão a dizer o contrário. A religião sempre foi o fator que estimulou a civilização e a indústria dos diversos povos: a construção da habitação humana, a fundação de cidades, a abertura de estradas, a ereção de pontes, a domesticação de animais, o cultivo de plantas, a contabilidade bancária são realizações inspiradas inicialmente por motivos religiosos; a religião, longe de coibir, sempre fomentou o exercício das faculdades superiores do homem (inteligência e vontade) ; a história da ciência e a civilização são, em grande parte, tributárias das aspirações religiosas que constantemente moveram os homens a novos empreendimentos.

b) A tese da eternidade da matéria está em contradição com a da evolução ascensional da mesma matéria; carência de inicio e evolução são termos inconciliáveis entre si, pois toda evolução supõe necessàriamente um ponto inicial e outro final. A hipótese da eternidade do mundo está também em desacordo com a ciência moderna, que não somente requer um ponto de partida para o processo evolutivo do universo, mas também fala de relativa «juventude» do cosmos (cerca de dez bilhões de anos).

Um autor (Rimaud) conta a respeito de um grupo de jovens que celebravam a Eucaristia ao ar livre, na África, sobre uma grande pedra que fazia as vezes de altar. Um pastorzinho os contemplou por longo tempo, e a seguir, silenciosamente, aproximou-se deles e colocou uma flor, que acabava de colher no campo, sobre a pedra do altar, junto ao pão e o vinho, e retirou-se. Os jovens ficaram contemplando em silêncio o sentido de um gesto: uma flor que com sua beleza e seu perfume queria somar-se expressivamente à fé de um grupo e à consciência do encontro com o Dom de Deus… A beleza de uma criatura somava-se à homenagem a seu Criador.

c) Entre os homens existe, sim, igualdade básica de natureza (todos são animais racionais), diferenciada, porém, por características acidentais, pessoais; dotados de diversa capacidade intelectual e variada energia de vontade, os indivíduos tendem pelas suas atividades a se dispor em hierarquia, devida ao uso e ao abuso que cada um faz de suas qualidades. As desigualdades econômicas, portanto, provêm em grande parte das desigualdades naturais que intercedem entre os indivíduos; por isto é que não são condenáveis, desde que se mantenham dentro de certos limites e não impeçam a colaboração de todos para o bem comum. O nivelamento dos indivíduos mediante a extinção da propriedade particular é contraditório à própria natureza humana, como o comprova a experiência da Rússia mesma: a sociedade soviética conhece hoje de novo as suas classes, os seus indivíduos e grupos privilegiados, embora os nomes e títulos sejam diferentes dos que estavam em voga no regime imperial. Donde se vê que a igualdade entre os homens não poderá ser aritmética, mas há de ser proporcional: todo indivíduo na sociedade há de gozar de direitos particulares, correlativos às suas aptidões naturais e à contribuição que ele possa prestar ou haja prestado ao bem comum.

De resto, fraternidade entre os homens sem crença em Deus é impossível; se não se reconhece um Pai comum nos céus, com que direito se exigirá que os homens se reconheçam uns aos outros como irmãos sobre a terra ? Cedo ou tarde, mostra-nos a história que as tendências egoístas se atuam, corroendo a filantropia dos ateus. Muito menos se pode esperar que, sem Deus, os homens instaurem o paraíso sobre a terra, vivendo sem leis, em espontânea concórdia. Tal expectativa ignora totalmente a realidade histórica: a natureza humana e, com ela, o mundo visível estão sujeitos à desordem que o pecado inicial introduziu (pecado de que falam as reminiscências mesmas dos povos primitivos); e somente pela reconciliação do homem com Deus é que se poderão obter harmonia e bem- -estar neste mundo. — À luz destas considerações, o marxismo aparece claramente como uma religião desviada do seu verdadeiro objetivo. Aliás, já dizia muito a propósito Donoso Cortês, o famoso estadista (+1853): “Toda civilização é sempre o reflexo de uma Teologia” (Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialismo 1851).

Vê-se, por fim, que não há compatibilidade entre catolicismo e marxismo plenamente entendidos. Isto não exclui que certas teses marxistas referentes à economia ou à administração pública possam ser incorporadas à ideologia cristã. Segundo as declarações dos próprios comunistas, o marxismo não pode nem quer ser concebido independentemente do quadro filosófico ou do materialismo dialético que inspirou a Marx; qualquer tentativa, como a da II Internacional, de edificar o comunismo sobre outro fundamento filosófico é rejeitada pelo bloco marxista preponderante qual deviação ou heresia (sabe-se que a II Internacional, de 1880 ao fim da primeira guerra mundial, foi tida por Lenin, Trotzkij como Internacional dos social-patriotas e dos traidores). A prática do marxismo é indissolúvel da respectiva teoria; por isto também tudo que o marxista realiza na vida pública, ele o realiza no espírito do partido. Diz Lênin: “O materialismo implica, por assim dizer, o espírito de partido, enquanto nos obriga, em lodo juízo que formulemos sobre um acontecimento, a colocar-nos direta e abertamente do ponto de vista de certo grupo social” (Obras I 380s).

Dom Estevão Bettencourt (OSB)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *